Usando testes genéticos para reunir famílias

Análises de DNA são ferramentas importantes para reunir crianças que foram separadas de seus pais por migrações, guerras e outras circunstâncias

Ir de um país para outro para fugir de regimes autoritários, de conflitos armados ou simplesmente para buscar melhores condições de vida envolve diversos riscos. Entre eles, está a possível separação de pais e filhos. Como exemplo, apenas entre outubro de 2020 e março de 2021, mais de 70 mil famílias migraram para os Estados Unidos. Em meio a elas, estavam mais de 45 mil menores de idade desacompanhados. 

A separação de pais e filhos tem impactos de longo prazo na saúde física e mental de crianças. Por isso, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) defenderam, em artigo publicado na revista Science no mês de junho, o uso da genética para tentar reunir famílias que por algum motivo foram separadas.

Como testes genéticos podem ajudar a reunir famílias?

Existem vários tipos de testes genéticos, que são feitos com finalidades diferentes. Eles podem ler apenas uma parte do DNA ou o genoma inteiro (todo o material genético que temos) em busca de pistas sobre nossa ancestralidade ou saúde.

Para descobrir se existe parentesco entre duas pessoas, especialmente quando são parentes de primeiro grau, um método bastante utilizado atualmente é a análise de regiões do DNA chamadas de STRs (da sigla em inglês para short tandem repeats).

Em nosso DNA, temos uma grande sequência de 3 bilhões de pares de letras. Se olharmos com atenção, veremos que existem algumas sequências de letras que se repetem dezenas ou centenas de vezes. Quando são consideradas curtas (geralmente menores do que 350 letras), essas sequências são chamadas de STRs e são passadas de geração em geração. 

Há muita variabilidade de STRs na população. Assim, cientistas conseguem descobrir se duas pessoas são parentes próximos caso muitas dessas sequências estejam presentes em ambas as amostras.

Avós da Praça de Maio

Em 1977, um grupo de mulheres argentinas fundou a associação civil “Avós da Praça de Maio”. Seu objetivo é encontrar centenas de crianças que desapareceram ou foram roubadas e adotadas ilegalmente durante o regime militar da Argentina entre 1975 e 1983. 

Em 1983, as “Avós” entraram em contato com Mary-Claire King, uma das mais influentes geneticistas dos últimos 50 anos. Com a ajuda da pesquisadora, a instituição foi pioneira no uso da genética para reunir famílias. Até hoje, com a ajuda de análises genéticas de DNA mitocondrial, que é passado de mães para filhos, as “Avós” já ajudaram a reunir mais de 100 crianças com suas famílias biológicas.

Outras instituições

Seguindo o exemplo da instituição argentina, defensores dos direitos humanos de El Salvador fundaram a agência “Asociación Pro-Búsqueda de Niñas y Niños Desaparecidos” em 1994. Desde então, geneticistas já ajudaram o grupo a localizar mais de 300 crianças que desapareceram durante a guerra civil no país, que durou de 1980 a 1992.

Notando a importância da genética para identificar pessoas e reuní-las com suas famílias, o Comitê Internacional de Pessoas Desaparecidas (ICMP), fundado em 1996, também passou a usar testes genéticos a partir de 2001.

Atualmente, o banco de dados do ICMP contém mais de 100 mil amostras de DNA e a instituição é conhecida por ter o maior programa do mundo de testes genéticos para identificação de pessoas desaparecidas. O projeto já ajudou a identificar mais de 20 mil indivíduos em 40 países.

Tendo em vista o sucesso destas iniciativas, os autores do artigo publicado na revista Science propõem que testes genéticos sejam usados cada vez mais com a finalidade de reunir famílias. De acordo com eles, é importante apenas assegurar que os dados genéticos sejam protegidos e não sejam usados para nenhum outro fim.

“O papel do DNA é identificar as relações genéticas, para que crianças possam restaurar sua identidade familiar e ter a oportunidade de se reunir com suas famílias”, escrevem eles. “Ele deve ser usado quando a falta de evidências sobre a localização ou a identidade de uma criança estiver impedindo uma reunificação. Desta forma, o DNA pode ajudar a encurtar o tempo que os familiares ficam separados, diminuindo a angústia e o trauma de uma perda para que o processo de cura possa começar”.

Deixe uma resposta

You May Also Like