Como a Genética ajuda na busca por novos tratamentos contra Covid-19?

Estudos mostraram que pessoas com certas variações genéticas têm chances maiores de ter quadros graves de Covid-19; saber quais são essas variantes pode levar ao desenvolvimento de novos tratamentos contra a doença

Nossos genes influenciam muito em nossa saúde. Diferentes pessoas têm diferentes chances de desenvolver muitas doenças, mesmo aquelas que não são totalmente genéticas, dependendo do que está escrito no seu DNA.

Desde que a epidemia do coronavírus começou, cientistas começaram a procurar por genes que aumentavam as chances do desenvolvimento de Covid-19. Para isso, grupos de pesquisa ao redor do mundo, provenientes tanto do meio acadêmico como de empresas privadas, formaram o HGI (da sigla em inglês Host Genetics Initiative). Juntos, eles já analisaram o genoma de mais de 100 mil pessoas e descobriram que certas variações genéticas estão associadas a casos graves de Covid-19.

De acordo com os autores do estudo, além de melhorar a compreensão que temos da doença, descobrir quais genes estão associados à resposta imune do nosso organismo contra ela também pode ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos.

Variações genéticas

Uma das variações encontradas pelos cientistas está perto de uma família de genes chamada OAS, responsável por ativar enzimas do nosso corpo que atacam diferentes tipos de vírus. Pessoas que produzem quantidades menores dessas enzimas são mais propensas a serem hospitalizadas e ficarem em estado crítico de saúde.

Nesse estudo os pesquisadores descobriram que o SARS-CoV-2, diferente de outros coronavírus, não possui mecanismos para evitar essa via de defesa do nosso corpo.

“Esse pode ser um calcanhar de Aquiles [do novo coronavírus]”, explicou Brent Richards, geneticista da Universidade McGill que faz parte do HGI. O pesquisador disse ainda que empresas farmacêuticas já estão estudando esse mecanismo para desenvolver um novo tratamento para Covid-19.

Ensaios clínicos britânicos, denominados de RECOVERY, também usam dados genéticos para descobrir remédios que podem ser eficientes contra a Covid-19. Entre eles está uma droga para artrite reumatóide chamada baricitinib. O medicamento inibe uma proteína codificada pelo gene TYK2, que foi associado a casos graves de Covid-19.

Mutações raras

Além de buscar por variações genéticas, que são relativamente comuns na população, cientistas também procuram por mutações raras que podem estar relacionadas a casos graves de Covid-19. Esse é o caso de Jean-Laurent Casanova, geneticista da Universidade de Rockefeller que lidera o consórcio COVID Human Genetic Effort

Em setembro de 2020, seu grupo estudou pessoas com quadros graves de Covid-19 e descobriu mutações que desativavam genes envolvidos em uma resposta antiviral do organismo. A mutação é rara na população geral, mas os pesquisadores observaram que 10% das pessoas com casos graves de Covid-19 no estudo tinham mecanismos semelhantes aos efeitos da mutação genética. 

“Essencialmente, descobrimos um mecanismo que leva à pneumonia em casos críticos de Covid-19”, afirmou Casanova.

Montando um quebra-cabeça

A maior associação entre qualquer variação genética e Covid-19, porém, está em uma região do cromossomo 3 pouco estudada. Pessoas que têm a variante em questão têm duas vezes mais chances de serem hospitalizadas. Estudos mostraram que ela também aumenta as chances de pessoas acima de 60 anos ficarem gravemente doentes ou morrerem de Covid-19 tanto quanto, ou até mais, do que outros fatores de risco, como diabetes e obesidade.

“Nós ainda não sabemos, na comunidade científica, porque essa variação genética é tão importante”, conta Guillaume Butler-Laporte, médico da Universidade McGill. A região do cromossomo 3 inclui diversos genes envolvidos na resposta imune, mas ainda não está claro quais deles explicam a associação com a Covid-19.

Os pesquisadores garantem, porém, que mesmo associações ainda enigmáticas como as do cromossomo 3 revelarão importantes insights que ajudarão a tratar a Covid-19.

“Cada nova descoberta genética é como a peça de um quebra-cabeça”, explica Alessandra Renieri, geneticista da Universidade de Siena. “Muitas peças estão se encaixando. Tenho certeza de que a imagem ficará muito mais clara em um futuro bem próximo”.

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