É possível trazer espécies extintas de volta à vida?

Empresa investirá US$ 15 milhões para tentar “recriar” espécie de mamute extinta há mais de 4 mil anos

Se você é um fã de Jurassic Park, vai gostar de saber que uma empresa com objetivo parecido ao do personagem John Hammond, da clássica série de filmes, acabou de receber um grande investimento. A ideia não é fazer um Parque dos Dinossauros, mas sim trazer de volta à vida os mamutes-lanosos, espécie extinta há mais de 4 mil anos.

A Colossal, empresa de biociência e genética, anunciou no mês de setembro que investirá US$ 15 milhões (cerca de R$ 80 milhões) em um projeto que tem como meta obter filhotes de mamutes dentro de seis anos. “Este é um grande marco para nós”, disse o biólogo George Church, da Escola de Medicina de Harvard, que irá liderar o projeto.

Mesmo com o grande aporte financeiro, muitos cientistas estão bastante céticos em relação ao projeto. “Haverá muitos problemas que todos irão encontrar ao longo do caminho”, disse Beth Shapiro, paleogeneticista da Universidade da Califórnia e autora do livro “Como Clonar um Mamute”.

Do genoma de elefantes ao de mamutes

A ideia para o projeto da Colossal surgiu em 2013, quando Church falou sobre o tema em uma palestra na National Geographic Society. Na época, cientistas começavam a estudar como seria possível reconstruir o genoma de espécies extintas a partir de fragmentos de DNA encontrados em fósseis.

Comparando o material genético de animais que já não existem com o de seus “primos” atuais, eles conseguiram identificar alterações genéticas que diferenciavam as espécies e entender como essas alterações resultavam nas mudanças em seus corpos.

Como os mamutes compartilham um ancestral comum com elefantes asiáticos, que viveu cerca de seis milhões de anos atrás, Church acredita ser possível modificar o genoma dos animais que existem hoje para trazer de volta à vida seus primos já extintos.

Editando o DNA

Para realizar o ambicioso projeto, o grupo de Church analisou o genoma de 23 espécies, incluindo de elefantes vivos e de mamutes extintos. As pesquisas revelaram que há cerca de 60 genes responsáveis pelas características distintas dos mamutes, como o crânio, a pelagem e o espesso tecido adiposo que os ajudava a sobreviver em baixas temperaturas. 

Os próximos passos do projeto são modificar o DNA dos elefantes atuais para torná-lo mais similar ao dos mamutes e produzir um embrião com o novo genoma. Para isso, os cientistas precisarão obter DNA do óvulo de um elefante e substituí-lo pelo DNA alterado. A tarefa não será nada simples – até o momento, óvulos de elefante nunca foram obtidos e utilizados com finalidades parecidas.

Obstáculos do tamanho de mamutes

As dificuldades do projeto, entretanto, não param por aí. Caso o grupo de Church consiga obter um embrião de mamute, será preciso encontrar um ambiente adequado para ele se desenvolver. A opção de usar um elefante como “barriga de aluguel” para o embrião seria possível para gestar um bebê, mas é inviável se o objetivo for criar rebanhos inteiros de mamutes.

Por isso, Church pensa em criar úteros artificiais a partir de células tronco de elefantes. A ideia tem precedentes: em um hospital na Filadélfia, nos Estados Unidos, pesquisadores produziram uma espécie de útero artificial capaz de desenvolver um feto de carneiro por quatro semanas. Mas o desafio de Church seria ainda maior: o útero para um mamute teria que sobreviver por dois anos e suportar um feto que poderia pesar mais de 90 quilos.

“A edição (do DNA), acredito, vai correr bem. Penso que temos muita experiência com isso, mas fazer os úteros artificiais não é garantido. É uma das poucas coisas que não é pura engenharia, o que sempre aumenta a incerteza e o tempo de entrega”, disse Church em uma entrevista à CNN internacional.

Por que trazer um mamute de volta à vida?

E se você está se perguntando porque Church quer trazer mamutes de volta à vida, o biólogo argumenta que eles poderiam ajudar o meio ambiente. Atualmente, a tundra siberiana, que um dia foi o hábitat natural dos mamutes, está cada vez mais quente e dominada por musgos.

Mas, na época dos mamutes, era uma pradaria repleta de grama. Pesquisadores argumentam que ao destruir o musgo e aumentar a fertilização natural com suas fezes, os mamutes poderiam reconstruir o ecossistema que um dia habitaram.

Além disso, Ben Lamm, um dos fundadores da Colossal, acredita que a empresa desenvolverá novas tecnologias de engenharia genética que poderão ser utilizadas com outras finalidades. Entre elas, Lamm espera usar os avanços para ajudar espécies em risco de extinção. Sua ideia é alterar genes relacionados à resistência a patógenos ou genes relacionados à tolerância ao calor e à seca causados pelo aquecimento global.

O projeto de Church tem seus méritos e pode, de fato, gerar inovações tecnológicas e científicas a longo prazo. Mas, considerando os desafios que ele tem pela frente, a melhor ideia para ver um animal extinto nos próximos anos talvez seja ir ao cinema. 

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