Como piolhos ajudam a explicar migrações humanas

A relação de parasitismo de piolhos com humanos pode ajudar a desvendar mistérios do povoamento da América do Sul. Um estudo publicado em um jornal científico da Universidade de Oxford revelou que a “cola” usada pelos piolhos para prender as lêndeas ao cabelo humano pode conservar o DNA por milhares de anos.

Graças à paleogenética, pesquisadores conseguem desvendar mistérios milenares, como a ancestralidade de múmias. Para extrair essas informações, no entanto, era necessário usar técnicas invasivas ou destrutivas. Agora, graças aos piolhos, é possível obter dados mais completos sobre a história evolutiva de antigas populações, como rotas de migração e possíveis causas de morte.

Evolução e adaptação

Por causa do nome científico do piolho, a infestação em um hospedeiro é chamada de pediculose. E existe tanto a pediculose da cabeça quanto a do corpo.

O piolho que parasita seres humanos é o Pediculus humanus. Ele tem duas subespécies: o capitis (cabeça) e o corporis (corpo).

As relações de parasitismo muitas vezes são marcadas pela evolução conjuntas das espécies. Afinal, para que o parasita consiga sobreviver, ele precisa se adaptar ao estilo de vida do hospedeiro. Há milhares de anos, quando o ser humano passou a se cobrir do frio, o Pediculus humanus corporis, que causa a pediculose corporal, se adaptou para viver também em peles e tecidos em contato com o corpo humano.

E se hoje esses parasitas já causam transtornos aos humanos, principalmente crianças em idade escolar, os nossos ancestrais tinham métodos ainda menos eficazes para prevenir e eliminar a ação de piolhos. Por isso, infestações nas roupas e no couro cabeludo eram bastante comuns.

Uma epidemia de piolhos no Egito Antigo, por exemplo, obrigou homens e mulheres, de diferentes idades e classes sociais, a raspar a cabeça. Para disfarçar, eles usavam adornos, como perucas, feitos de fibra de papiro.

Cientistas já acreditavam na análise do DNA de animais como um espelho da evolução humana. Por isso, um projeto reuniu pesquisadores das universidades de Bangor (País de Gales), Copenhague (Dinamarca), Reading (Inglaterra) e San Juan (Argentina), além do Museu de História Natural da Universidade de Oxford (Inglaterra), para estabelecer relações entre piolhos e humanos e responder perguntas importantes sobre a ancestralidade humana.

Cientistas descobriram que a cola usada por piolhos para prender lêndeas aos fios de cabelo são capazes de preservar o DNA humano.

A “supercola” dos piolhos

O grupo de pesquisadores analisou duas múmias preservadas, além de outros restos humanos, datados entre 1.300 e 2.000 anos. Ambos foram encontrados nas cavernas de Calingasta, na Argentina, uma região pertencente à Cordilheira dos Andes.

Para a análise, porém, os pesquisadores não extraíram dentes ou outros ossos, porque essas técnicas poderiam ser invasivas ou destrutivas. A opção foi extrair não mais do que seis lêndeas por múmia, e isso foi suficiente para obter várias descobertas.

A principal delas foi que a cola usada por piolhos para prender os ovos ao cabelo humano tinha características químicas que permitiu a absorção de células da pele, provavelmente do couro cabeludo. E como cada célula humana guarda uma cópia do nosso DNA, o material genético foi preservado.

De acordo com os cientistas, a cola das lêndeas é capaz de conservar o DNA humano em uma qualidade tão alta quanto aquele encontrado em dentes e outros ossos, e muito maior do que o coletado no interior do crânio.

Junto das lêndeas das múmias argentinas, foi encontrado também material genético que não era humano e nem de piolhos. Após análise, outra grande descoberta: a mais antiga evidência do poliomavírus de células de Merkel. Descoberto em 2008, esse vírus é suspeito de causar uma forma rara e agressiva de câncer de pele, e agora há uma teoria de que os piolhos tenham um papel na sua disseminação.

A relação de parasitismo de piolhos com humanos pode ajudar a desvendar mistérios da ancestralidade humana, como rotas de migração e possíveis causas de morte.

Novas descobertas

Uma das múmias encontradas tinha cerca de 2 mil anos. Após a análise, os cientistas concluíram que o material genético era de um homem originário do norte da Amazônia, já que o DNA coincidia com o de populações indígenas do sul da Colômbia e da Venezuela.

Outra conclusão foi que ele teria morrido de frio, ou por algum fator em razão dele. Isso porque os ovos de piolho estavam muito mais próximos do couro cabeludo, que é uma fonte de calor, o que pode ter sido uma tentativa de garantir a sobrevivência das lêndeas em temperaturas extremas.

Já os outros materiais genéticos, que eram mais recentes (entre 1.300 e 1.500 anos), não possuíam as mesmas características genéticas. Em vez de ter origem norte-amazônica, os estudos apontaram para uma origem na Patagônia, no sul da Argentina.

Tudo isso ajudou a revelar um grande movimento migratório na região, há milhares de anos. Os humanos vindo da América do Norte teriam tomado uma rota oriental, muito provavelmente impulsionada por mudanças climáticas.

A história da evolução humana ainda tem muitos capítulos a serem preenchidos, principalmente sobre o povoamento da América do Sul. Mas graças à ciência e à tecnologia, novos métodos e técnicas vão ajudando, aos poucos, a montar esse quebra-cabeça.

Quer saber quais informações a ciência já obteve sobre a origem dos povos indígenas e sobre o povoamento das Américas? Então leia este artigo sobre migrações desvendadas pela genômica!

Publicado por Thiago Leite

Thiago é mineiro, jornalista e especialista em marketing digital. Com experiência em diversos meios de comunicação, confia no poder da boa e velha estratégia de conteúdo orgânico.

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