Análises genéticas revelam quem foram os primeiros agricultores do mundo

Análises genéticas revelaram mais detalhes sobre como os humanos deixaram de ser caçadores-coletores e se tornaram agricultores

Sempre que vamos a mercados para comprar frutas, legumes e verduras, esperamos uma grande variedade e quantidade de produtos para nossa escolha. Mas nem sempre foi tão fácil assim conseguir alimentos. Durante grande parte da história da nossa espécie, fomos caçadores-coletores – ou seja, em vez de plantar e cultivar, apenas consumíamos os alimentos que achávamos na natureza, como outros animais.

A história da agricultura

Foi apenas entre 12 e 10 mil anos atrás que um dos mais importantes acontecimentos da história humana aconteceu: a revolução neolítica. Assim foi chamada a transição entre um estilo de vida nômade de caça e coleta para a agricultura, que permitiu a populações de grupos humanos aumentar e se estabelecer em um local. Essas comunidades observavam, aprendiam e experimentavam com a plantação e crescimento de plantas, o que eventualmente levou à domesticação de diversas espécies vegetais.  

Embora muitas evidências arqueológicas apontem para as épocas e os locais em que a revolução neolítica aconteceu, ainda são poucos os estudos genéticos de humanos que viveram nessa época. Uma nova pesquisa, publicada em maio deste ano na revista Cell, explorou esse tema ao sequenciar o genoma de 15 caçadores-coletores e de alguns dos primeiros agricultores do mundo.

Os primeiros agricultores

O objetivo do estudo, realizado pela Universidade de Bern, na Suíça, foi entender melhor a ancestralidade dos primeiros grupos humanos a se tornarem agricultores e entender como a agricultura se espalhou pela Ásia e Europa. Para isso, pesquisadores sequenciaram o DNA de ossos humanos que foram encontrados nos mais importantes sítios arqueológicos do mundo referentes à revolução neolítica. Os locais incluíam, por exemplo, a região da Anatólia, que atualmente compõe a maior parte da Turquia.

Mapa mostrando região da Anatólia, atual Turquia.
Sítios arqueológicos utilizados pelo estudo para obter fósseis dos primeiros agricultores do mundo – em destaque, região da Anatólia (hoje Turquia) e Península Balcânica.

Estudos anteriores haviam mostrado que os primeiros agricultores eram geneticamente muito distintos de outros grupos humanos que viveram na mesma época, mas pouco se sabia sobre suas origens. Agora, os cientistas descobriram que os primeiros agricultores da Anatólia eram descendentes miscigenados de diferentes grupos de caçadores-coletores que viviam espalhados entre o Oriente Médio e a Península Balcânica, na Europa.

Esses grupos teriam se separado muito antes, cerca de 25 mil anos atrás, no auge da última Era do Gelo. Modelos computacionais indicam, inclusive, que os caçadores-coletores orientais quase foram extintos nesse período, mas conseguiram sobreviver à medida que o clima da região voltou a aquecer.

Levando a agricultura para a Europa

A próxima pergunta que os pesquisadores tentaram responder foi: a agricultura se espalhou do Oriente Médio para o resto da Europa por difusão cultural ou através de migrações humanas?

Depois de se estabelecerem na Anatólia, o estudo indicou que as primeiras populações de agricultores foram, aos poucos, migrando para a Europa. Uma das principais rotas de migração dos primeiros agricultores para a Europa foi ao longo do Rio Danúbio, que fornecia uma constante e preciosa fonte de água para os humanos e suas plantações. 

As análises genéticas mostraram que eles se misturavam ocasionalmente, mas não extensivamente, com grupos de caçadores-coletores que encontravam ao longo do caminho. “Foi a migração de pessoas e de comunidades de agricultores, há cerca de 8 mil anos, que levou a agricultura para a Europa”, disse Laurent Excoffier, geneticista envolvido no estudo.

Genética e interdisciplinaridade

A informação genética presente em fósseis pode ser difícil de ser estudada, pois muito se perde com o passar do tempo e a degradação do material. Por isso, Excoffier ressalta a importância da interdisciplinaridade para esse estudo e o cuidado ao escolher as amostras para tornar os resultados confiáveis.

“Levamos quase 10 anos para juntar e analisar os fósseis que consideramos adequados para nosso estudo”, disse o geneticista. “Isso só foi possível com a colaboração de muitos arqueólogos e antropólogos”.

O pesquisador ressalta que, mesmo após o novo estudo, ainda há muitas lacunas espaciais e temporais a serem preenchidas sobre a história da revolução neolítica e os primeiros agricultores. Por isso, sua equipe planeja agora complementar o modelo que criaram com genomas de humanos que viveram em fases posteriores ao Neolítico e à Idade do Bronze para fornecer uma imagem ainda mais detalhada da evolução humana nestes períodos.

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