De onde vêm os sotaques do Brasil? Parte 2

Graças aos diversos sotaques do Brasil, o português falado por aqui tem pronúncias distintas, mesmo seguindo a norma padrão. As letras “r” e “s”, por exemplo, podem ser pronunciadas de várias maneiras, todas elas carregadas de identidade e diversidade cultural.

Um sotaque é resultado de séculos de misturas. No Brasil, desde o início da colonização portuguesa, grupos de várias etnias desembarcaram por aqui e deixaram suas marcas na construção da língua falada.

A primeira parte desta série traz uma breve história da língua portuguesa, além das influências indígenas e africanas na formação das pronúncias. Nesta segunda parte, outros sotaques do Brasil são explorados, principalmente os que receberam contribuição de países europeus.

A diversidade dos sotaques do Brasil

A diversidade cultural brasileira é uma mistura única no mundo, que enche os olhos, mas também agrada aos ouvidos. Por aqui, as variações de pronúncia da língua portuguesa foram, e ainda são, construídas com a ajuda de vários povos.

No Sul do Brasil, o portugês falado foi construído a partir de influências principalmente de países do Leste europeu. Mas também recebeu contribuições latinas, dos países vizinhos (e quase todos têm o espanhol como idioma oficial).

Quem nasce em MG herda a abreviação de algumas palavras e a fala cantada dos escravizados africanos, que ajudaram a formar a população e a cultura locais.

Algumas regiões mineiras têm sotaques adicionais ou que até substituem o conhecido “mineirês”, especialmente as que estão próximas às divisas de oturos seis outros e o Distrito Federal.

A pronúncia conhecida como caipira, na qual o “r” é retroflexo, é bem forte no Sul do estado, próximo a São Paulo e Goiás. Já no Norte de Minas, por exemplo, o sotaque mineiro ganha vocais mais abertas e um tom anasalado, graças à proximidade com a Bahia.

E nos municípios mineiros mais próximos à divisa com o Rio de Janeiro, o sotaque ganha o chiado na pronúncia do “s”, marca registrada dos fluminenses.

Heranças europeias no Norte e Sudeste

O português falado no Brasil já era bem diferente do ensinado em Portugal. A vinda da corte para o Brasil, no século 19, reforçou a influência europeia nos sotaques do Brasil.

É impossível falar de sotaques do Brasil sem lembrar do carioca, um dos mais marcantes. O que pouca gente sabe é que o famoso “s chiado” veio de Portugal, diretamente para o Rio de Janeiro, três séculos depois do início da colonização.

Quando o Rio virou a capital do reino de Portugal, no início do século 19, D. João VI se mudou para o Brasil com a família real e a corte portuguesa. A nobreza quis replicar a vida na Europa, incluindo o jeito de falar. Por isso, a pronúncia do português brasileiro sofreu alterações específicas nas regiões com maior presença da corte.

De rocha, mano

Além do “s” com som de “ch”, os nobres portugueses também trouxeram a forte pronúncia do “r” para o sotaque carioca, como se estivessem raspando a garganta. Essa era uma imitação da pronúncia francesa, já que Paris, naquela época, era a maior referência cultural e intelectual da Europa (e do mundo).

Na região Norte do Brasil, os estados do Amazonas e do Pará também receberam reforços da influência portuguesa no mesmo período. Com o apogeu do ciclo da borracha, as capitais Manaus e Belém se tornaram as mais desenvolvidas do Brasil, baseadas no estilo europeu e sendo comparadas à Paris.

Com isso, o sotaque da região amazônica também mudou. Além dos novos sons do “s” e do “r”, vários outros foram aprimorados. Isso se deve também por contribuições nordestinas, devido à migração de vários trabalhadores, sobretudo do Ceará.

O “r” carioca veio da França, mas de maneira indireta: a corte portuguesa imitava a pronúncia dos franceses, a quem tinham como referência.

Orra, meu!

Voltando ao Sudeste, o sotaque paulista também recebeu influências distintas para a sua formação. Do tupi vieram vários nomes, como Anhangabaú, Ibirapuera e Tatuapé, assim como a fonética, mesmo de palavras portuguesas, como  a do “r caipira” (ou retroflexo).

As contribuições indígenas continuam no cotidiano do paulista, mas o sotaque sofreu mudanças, algumas causadas principalmente pela imigração italiana. O fluxo de imigrantes vindos da Itália para o Brasil foi crescente após a unificação do país europeu, em 1870, até o início do século 20.

Espalhada pelo interior do estado e concentrada no centro expandido da capital paulista, a comunidade italiana em 1934 já representava 50% da população de São Paulo. Foi assim que surgiu a pronúncia do “r” vibrante, com a língua tremida atrás dos dentes, “empurrando” o “r caipira” para as periferias da capital e o interior do estado.

A pronúncia italiana do “r” vibrante, com a língua tremida atrás dos dentes, ganhou força em SP e empurrou o “r” retroflexo, ou caipira, para as periferias da capital e o interior do estado.

Heranças europeias no Nordeste e Sul

O sotaque de Recife, capital do estado de Pernambuco, tem o “r” com uma pronúncia bem forte, que lembra o das línguas de origem germânica. Ele tem origem na invasão pelos holandeses, no século 17, da capitania de Pernambuco, a mais rica das possessões portuguesas na época.

Mais liberal e tolerante que a colonização portuguesa, a invasão holandesa durou menos de 25 anos, mas deixou marcas culturais e abriu portas para outras influências na região. Naquela época, em Recife, a primeira sinagoga das Américas era erguida por judeus que vieram da Europa.

No Sul do Brasil, outros povos europeus deixaram marcas no português falado. Em algumas cidades de Santa Catarina, a influência italiana ainda pode ser ouvida em palavras que terminam em duas ou mais vogais, ou nas que trazem duas consoantes vibrantes  entre duas vogais. Por exemplo: “mon” em vez de “mão”,  e “karo” em vez de “carro”.

O chimarrão tem origem indígena, e a arquitetura típica do Sul brasileiro veio do Leste da Europa.

Florianópolis, por sua vez, recebeu portugueses das ilhas portuguesas da Madeira e dos Açores. Isolados na ilha da magia, eles rapidamente deram um tom particular ao sotaque da região, como  mesmo “s” com som de “ch” de Belém, Manaus e Rio.

E dos ucranianos e poloneses que vieram no século 19 para Curitiba, no Paraná, surgiu a pronúncia pausada e marcada do “e” no final das palavras. O característico “leitE quentE” dessa região veio da ausência de vogais nas línguas de origem eslava, além da necessidade de adaptação para entender e falar o nosso português.

Já no Rio Grande do Sul, o sotaque também recebeu várias contribuições. A região, que era da Espanha até a retomada dos portugueses, também faz fronteira com outros países de língua espanhola. Havia também colonos italianos e alemães, além dos jesuítas portugueses.

[sotˈaki], [sutˈakɨ]… qual o seu? 

A diversificação dos sotaques do Brasil pode ser explicada pelas várias ondas migratórias, de diversos povos, e em épocas distintas. É por isso que, mesmo compartilhando o mesmo idioma, regiões distintas possuem suas próprias pronúncias.

Não existe sotaque feio ou bonito, melhor ou pior. Todos os sotaques do Brasil merecem ser respeitados porque representam a identidade de um povo, e as marcas deixadas por quem já passou por ali.

E existe também uma grande diferença entre sotaque e dialeto. O primeiro é sobre a sonoridade, enquanto o segundo representa particularidades de estrutura e vocabulário. Alguns especialistas consideram o português brasileiro como um dialeto, por ter origem estrangeira, apresentar fortes variações e ser restrito a uma comunidade regional.

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