Transgênicos: aliados ou inimigos?

3 cestos, um ao lado do outro, com alimentos transgênicos

Entenda o que são transgênicos, como são produzidos e se eles são benéficos ou prejudiciais para a saúde humana.

Os transgênicos vão muito além do milho e da soja. Esses são os exemplos mais conhecidos e mais discutidos, mas não são os únicos: bactérias, animais e diversas outras plantas já receberam as suas versões geneticamente modificadas. 

Desde que as sociedades humanas deixaram de ser caçadoras-coletoras e passaram a depender da agricultura e pecuária, os humanos começaram a realizar seleção artificial daquilo que era produzido.

Dessa forma, foi – e ainda é – possível selecionar na plantação, ou no rebanho, uma determinada característica de interesse. Cruzando plantas que possuem frutos mais doces, ou vacas que produzem mais leite, por exemplo, o resultado é uma maior produtividade de frutos doces e quantidade de leite, mas a mudança só é perceptível, ou vantajosa, depois de muitas gerações. 

Será que há uma forma mais rápida de fazer essa seleção?

O que são transgênicos

Organismos geneticamente modificados (OGM), são aqueles que passaram por alguma alteração genética artificial, induzida em laboratório – como provocar o aumento ou diminuição da expressão de um gene, por exemplo. Os transgênicos são os OGM que receberam genes de outros organismos.

ilustração mostrando alimentos transgênicos hipotéticos, com características diferentes das originais

Ao inserir um novo gene, os cientistas estão colocando também uma nova característica naquele organismo. Os genes inseridos podem ser provenientes da mesma espécie, ou de uma espécie completamente diferente.

Dessa forma, a transgenia acelera o processo de seleção artificial “manual”. No método tradicional de cruzar plantas com frutos mais doces, são muitas e muitas safras até se conseguir uma quantidade suficiente de pés para obter toda uma plantação de frutos doces.

Para se fazer um transgênico, também não é de um dia para outro: leva-se mais de uma década considerando todas as etapas de pesquisa, desenvolvimento e os testes de aprovação. Mas, ainda assim, é um tempo menor do que o método tradicional de seleção de características. 

Além disso, a transgenia possibilita a aquisição de características novas para aquele organismo, que não são encontradas em nenhum exemplar da espécie.

Como fazer um transgênico

Antes de tudo, a sequência de DNA dos organismos envolvidos precisa ser conhecida, para saber qual gene carrega a característica de interesse da espécie “doadora” e em que local do genoma esse gene será inserido na espécie “receptora”.

Em geral, para entregar o novo gene, utilizam-se trechos de DNA de bactérias ou leveduras, chamados de plasmídeos. Em outros casos, podem ser utilizados vírus, que não causam doenças, para fazer a entrega do novo gene.

Ocorre então uma fusão dos genes no genoma do receptor. O processo não é 100% eficaz e por isso os organismos que foram de fato geneticamente modificados são selecionados e utilizados para reprodução.

Da bactéria à galinha: exemplos de transgênicos na medicina

O primeiro organismo transgênico foi desenvolvido na década de 1980, quando bactérias E. coli receberam genes humanos para produzir insulina. Antes disso, a produção de insulina para o tratamento de diabéticos era feita a partir de sua extração do pâncreas de bovinos e suínos. Porém, a produção não supria a demanda, e a insulina proveniente de animais, além de ser pouco eficaz, causava efeitos colaterais.

A insulina não é o único transgênico com aplicação para a medicina. A vacina contra a hepatite tipo B, o hormônio de crescimento, e a eritropoetina – hormônio utilizado para o tratamento de anemia -, são outros exemplos bem sucedidos da engenharia genética, tendo possibilitado a produção em larga escala dessas substâncias.

Já pensou em comer arroz e produzir anticorpos contra a cólera? Sim, o arroz transgênico que carrega genes da bactéria V. cholerae é uma vacina comestível que está na fase de testes clínicos.

Animais transgênicos também são desenvolvidos com finalidade de pesquisa. Camundongos e ratos, por exemplo, já receberam os genes de fluorescência de água viva, de forma que suas células ficam fluorescentes. Essa técnica possibilita diversas investigações, como rastrear um determinado tipo celular ou acompanhar o desenvolvimento de órgãos saudáveis e doentes.

Muitos camundongos transgênicos já receberam genes humanos, para mimetizar uma característica ou doença humana, possibilitando estudar os mecanismos de como ela se desenvolve e também para buscar alternativas terapêuticas.

Até galinhas transgênicas já foram desenvolvidas com finalidade médica. Nesse caso, a transgenia teve o objetivo de fazer com que os ovos produzissem a molécula sebelipase alfa, capaz de tratar uma doença rara chamada Deficiência de Lipase Ácida Lisossômica, ou Doença de Wolman. 

ilustração de um médico entregando um ovo ao paciente, ao invés de uma caixa de remédios.

Do milho ao salmão: exemplos de transgênicos na agropecuária

Na agricultura, a engenharia genética é utilizada para aumentar a tolerância a pragas, e às condições adversas do solo e clima, diminuindo as perdas de produção e, portanto, perdas econômicas.

O milho transgênico Bt, criado em 1996, recebeu genes da bactéria  Bacillus thuringiensis (Bt), que expressam proteínas com propriedades inseticidas contra lagartas que são capazes de acabar com mais de 30% das plantações de milho.

Dessa forma, as plantações de milho Bt utilizam menos maquinário, combustível e inseticidas, além de ter uma produtividade maior e contaminação com micotoxina (toxina de fungos) menor do que o milho não Bt. Hoje, essa variedade de milho transgênico é utilizada em 90% das plantações brasileiras.

A soja transgênica Roundup Ready, da Monsanto, é resistente ao herbicida Roundup, da mesma empresa. Mas ao contrário do milho Bt, surgem ao redor dela polêmicas e dúvidas sobre o aumento do uso de agrotóxicos associado ao seu plantio.

Outra soja transgênica recebeu genes do girassol para resistir melhor à seca, já que o girassol tem raízes que atingem grandes profundidades no solo para conseguir água.

São inúmeros os exemplos de plantas transgênicas, entre elas: a batata resistente ao vírus PVY, o mamão resistente ao vírus PRSV e o arroz dourado, que possui vitamina A em sua composição nutricional e pode evitar a cegueira em milhares de pessoas, em especial do sudeste asiático, que sofrem com a deficiência dessa vitamina.

Já na pecuária, o desenvolvimento de animais transgênicos pode ter diferentes finalidades, como aumentar a produtividade, ou até mesmo para facilitar o manejo dos animais. Porém, poucos transgênicos já foram aprovados pela agência reguladora americana FDA para consumo humano.

O salmão transgênico, ao receber genes de enguias e de outra espécie de salmão, pode crescer em 16 meses, enquanto o salmão não transgênico leva mais do que o dobro. Já o porco transgênico é livre de alfa-gal, uma substância que causa alergias. Dessa forma, esses animais possuem tanto finalidade alimentar quanto médica, pois podem prover artefatos médicos, como órgãos para xenotransplante com menor risco de rejeição.

Quais são os riscos dos transgênicos?

Consumimos alimentos transgênicos há mais de 25 anos e nunca houve evidências científicas para afirmar que alimentos transgênicos aumentam o risco de alergias ou câncer. Em 2012 foi publicado um estudo francês que afirmava o aumento do risco de câncer, mas logo o artigo foi retratado, ou seja, foi reavaliado e excluído.

Porém, ainda surgem algumas preocupações ao redor dos transgênicos. Já foram desenvolvidas vacas transgênicas em que verificaram, durante o processo de aprovação, que carregavam indevidamente genes de resistência a antibióticos. Apesar de pouco provável que as vacas passem os genes de resistência para bactérias, o risco não é nulo.

Atualmente, os principais alertas do uso de transgênicos são ambientais. O salmão transgênico, por exemplo, se escapar dos tanques para o ambiente natural, irá competir por alimento (e ganhar, por conta de seu tamanho) com o salmão original. Por isso, os produtores do salmão tomaram diversas medidas de contenção, como barreiras físicas, além de garantir que os peixes fossem estéreis.

Outra preocupação é gerar pragas resistentes aos transgênicos. Para isso, há práticas de manejo com a finalidade de garantir a diversidade das pragas. Porém, nem sempre os agricultores seguem esses protocolos.

Vimos como a humanidade se beneficia, e muito, dos transgênicos. Para evitar que as preocupações se tornem um problema, depende de nós, seres não transgênicos, continuar com rigorosos estudos antes da aprovação e manter boas práticas em relação ao meio ambiente.

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