Atrofia Muscular Espinhal: a genética e a busca por novos tratamentos

A importância da genética para pacientes com AME
No Mês Mundial de Conscientização da Atrofia Muscular Espinhal, saiba mais sobre a doença e como a genética pode ajudar a abrir portas para novos tratamentos.

Na década de 1890, os cientistas Johann Hoffman e Guido Werdnig estudavam casos de bebês que desenvolviam fraqueza muscular logo nos primeiros meses de vida. Ainda mais curioso para eles, a condição parecia passar de uma geração para outra de uma mesma família.

Os pesquisadores conseguiram identificar que os neurônios de uma região específica do corpo – a medula espinhal – sofriam degeneração com o passar do tempo, o que causava a fraqueza muscular vista nos bebês. A doença foi chamada, na época, de doença de Werdnig-Hoffman, mas hoje a conhecemos como Atrofia Muscular Espinhal (AME).

Como o impulso nervoso é conduzido do cérebro ao músculo
Ilustração representando a medula espinhal e um neurônio motor, que conduz impulsos nervosos até o músculo.

A AME afeta cerca de um em cada 10 mil pessoas que nascem no mundo e é a principal causa genética de óbitos em bebês. Para aumentar a conscientização da doença, agosto foi declarado como o Mês Mundial de Conscientização da Atrofia Muscular Espinhal. Em 2020, o governo brasileiro também instituiu 8 de agosto como o Dia Nacional da Pessoa com Atrofia Muscular Espinhal. 

Neste post, saiba mais sobre a AME e como avanços na ciência e na genética ajudaram a melhorar a qualidade de vida dos pacientes com essa doença.

Atrofia Muscular Espinhal: uma doença genética

Apesar de Werdnig e Hoffman descobrirem alguns mecanismos da AME, a causa genética da doença infelizmente demorou mais de um século para ser descoberta. Foi apenas em 1995 que a Dra. Judith Melki e sua equipe sequenciaram o gene SMN1. Ele produz uma proteína chamada de neurônio motor de sobrevivência (SMN), importante para a manutenção dos neurônios motores – aqueles que conduzem impulsos nervosos para músculos e glândulas.

O grupo da Dr. Melki mostrou que pacientes de AME têm mutações nesse gene que prejudicam a produção da proteína SMN. Como consequência, os neurônios motores morrem e os estímulos elétricos não chegam aos músculos.

A Atrofia Muscular Espinhal é hereditária?

A AME é uma doença genética hereditária que tem padrão de herança recessivo. Isso significa que ela pode ser passada dos pais para os filhos e, para se desenvolver, precisa que as duas cópias do gene estejam alteradas. Quando apenas uma cópia do gene tem a mutação, a pessoa é considerada uma portadora, pois pode passar a alteração para a próxima geração, mas não tem sintomas da doença.

A descoberta da Dra. Melki, como veremos a seguir, abriu portas para novas formas de diagnosticar e tratar a AME. Até então, a doença era identificada através de sintomas clínicos, mas hoje é possível fazer exames genéticos que verificam se há ou não mutações nos genes associados à doença para confirmar o diagnóstico. 

Tipos e Sintomas de Atrofia Muscular Espinhal (AME)

Há cinco tipos de AME, cada um com sintomas e gravidades diferentes. Esses tipos estão relacionados a mutações nos genes SMN1 e SMN2, que também produz a proteína SMN, embora em menores quantidades. Por isso, em alguns casos, o gene SMN2 pode compensar parcialmente a deficiência causada por mutações no gene SMN1, tornando a doença e os sintomas menos graves.

Os tipos e sintomas da atrofia muscular espinhal

Terapia gênica: em busca de novos tratamentos para a AME

Com a descoberta de quais genes causavam a Atrofia Muscular Espinhal quando estavam alterados, pesquisadores começaram a buscar métodos para corrigi-los por meio de terapia gênica. A ideia da técnica é substituir genes alterados por genes saudáveis, seja pela introdução de DNA saudável nas células do corpo do paciente ou pela correção de genes com mutações. 

Em 2003, cientistas desenvolveram o primeiro medicamento para tratar a causa genética da AME, cujo princípio ativo, a nusinersena, ajuda o organismo a produzir maiores quantidades da proteína SMN a partir do gene SMN2. Em 2016, o FDA (Food & Drug Administration), nos Estados Unidos, aprovou o primeiro tratamento baseado em terapia gênica para AME. Com o tratamento, bebês com AME conseguiam se desenvolver de maneira mais saudável, conseguindo sentar, andar sem apoio e não precisavam da ajuda da ventilação artificial.

No Brasil, o mesmo medicamento foi aprovado pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 2017 e, em 2019, o tratamento foi disponibilizado no Sistema Único de Saúde (SUS).

Em 2020, a ANVISA aprovou dois outros medicamentos com base em terapia gênica para o tratamento de AME. Assim, se ainda não há uma cura, a constante evolução da genética permite o desenvolvimento de novos, e cada vez mais eficazes, tratamentos para melhorar a qualidade de vida dos pacientes de AME. 

Novos métodos de diagnóstico também já possibilitam a detecção precoce da doença, que será incluída na ampliação do Teste do Pezinho. Exames genéticos, e testes de triagem neonatal genética, como o Teste da Bochechinha, também ajudam na detecção precoce da doença, o que aumenta as chances de tratamentos bem sucedidos. 

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O que é atrofia muscular espinhal?

A Atrofia Muscular Espinhal (AME) é uma doença genética hereditária que causa a perda de funções musculares devido à morte de neurônios motores.

Quais os sintomas da atrofia muscular espinhal?

Os sintomas da atrofia muscular espinhal variam de acordo com o tipo e a gravidade da doença. De forma geral, incluem fraqueza muscular, dificuldade de se movimentar, se alimentar e respirar.

Como a atrofia muscular espinhal é herdada?

A atrofia muscular espinhal tem padrão de herança recessivo: para a doença se desenvolver, a pessoa deve receber duas cópias alteradas do gene, uma da mãe e outra do pai.

Como diagnosticar a atrofia muscular espinhal?

É possível diagnosticar através de exames genéticos e identificar mutações precocemente com triagens neonatais genéticas, como o Teste da Bochechinha.

Há tratamentos para atrofia muscular espinhal?

Sim, desde 2017 há tratamentos para atrofia muscular espinhal baseados em terapia gênica. Em 2019, eles foram disponibilizados pelo SUS.

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