Anemia falciforme: Quando comer feijão não ajuda a curar a anemia

Hemácias falciformes

Saiba mais sobre um dos tipos de anemia que não é solucionado pela ingestão de ferro.

O feijão, o ferro e a anemia

Quase como uma ordem, geralmente vinda de seus pais, você provavelmente já escutou a frase: – Você precisa comer feijão para não ficar com anemia!

Quando crianças, pouco entendemos sobre doenças e muito menos a sua relação com ingestão de alimentos. E, depois de adultos, é comum que algumas recomendações ou exigências feitas pelos nossos pais ainda permaneçam sem explicação.

A associação entre feijão e anemia, por exemplo, muitas vezes não é clara. O feijão é um alimento rico em ferro que por sua vez exerce um papel fundamental no transporte de gases respiratórios juntamente com a hemoglobina. A hemoglobina é uma proteína produzida pelas hemácias, as células vermelhas do sangue, e depende dos átomos de ferro para ser produzida.

A anemia é uma doença caracterizada pela diminuição do número de hemácias ou da hemoglobina. Assim, pessoas com a doença possuem menor oxigenação dos tecidos, causando sintomas como cansaço, tonturas, palidez e problemas de memória. A maior parte dos casos de anemia ocorre pela falta de ferro na alimentação, pois com pouco ferro no corpo, há pouca produção de hemoglobina.

Essa é a explicação do porquê comer feijão, e outras fontes ricas em ferro, é importante!

Anemia falciforme: uma doença hereditária

Além da falta de ferro, outros fatores podem levar ao desenvolvimento da anemia, sendo  um deles é uma mutação no gene que produz a hemoglobina, o gene HBB

Essa variação na sequência do DNA produz uma hemoglobina que forma aglomerados proteicos dentro das hemácias. Os aglomerados de hemoglobina são a raiz do problema, porque além da estrutura ter menor afinidade pelos gases respiratórios ela é capaz de modificar o formato das hemácias, deixando-as com aparência de foice.

As hemácias normais são células arredondadas (semelhante a uma rosquinha, sem o furo) e muito flexíveis. Essas características são importantes para que elas passem facilmente por vasos sanguíneos apertados (que são mais estreitos do que fios de cabelo). As hemácias falciformes possuem o formato de foice e são rígidas e quando encontram vasos sanguíneos pequenos ficam presas.

Hemoglobina normal e aglomerados de hemoglobina (falciforme)
Hemácias normais possuem a hemoglobina espalhada por toda a célula e conseguem passar facilmente em vasos sanguíneos apertados. Nas hemácias falciformes, a hemoglobina alterada forma aglomerados que deixam a célula rígida. Quando a hemácia falciforme encontra os vasos apertados, elas ficam presas.

Essa condição compromete a oxigenação dos tecidos e também provoca dor em todo corpo, mas principalmente nas extremidades, como nas mãos e nos pés. Além disso, as hemácias com forma de foice vivem menos tempo no sangue em comparação a uma hemácia normal (10-20 dias comparados à 120 dias), causando anemia crônica.

Sintomas da anemia falciforme:

– Dores de cabeça, ossos, articulações, tórax e abdômen
– Cor amarelada nos olhos e pele
– Inchaço e vermelhidão nos pés e nas mãos
– Infecções constantes de garganta e pulmões
– Falta de ar

Durante a gestação, os níveis de oxigênio dentro do corpo da mãe são diferentes do ambiente externo. Para se adaptar a essas condições, o bebê produz uma hemoglobina especial durante o desenvolvimento que tem maior afinidade pelos os gases respiratórios, a  hemoglobina fetal. 

Após o nascimento, não há mais um ambiente controlado fornecido pelo corpo da mãe e o corpo do bebê passa a produzir uma hemoglobina adaptada para essa nova condição, a hemoglobina de adulto. Pessoas com anemia falciforme possuem mutações no gene que produz a hemoglobina de adulto, por isso que os sintomas da doença começam a aparecer a partir dos seis meses de vida do bebê, tempo em que a hemoglobina fetal desaparece e é substituída pela de adulto.

A anemia falciforme é uma doença genética e hereditária, assim, para a criança desenvolver a doença, ela precisa herdar as duas cópias defeituosas do gene da hemoglobina de adulto, uma cópia da mãe e uma cópia do pai.  

Padrão de herança da anemia falciforme
Pessoas que herdam apenas uma cópia do gene alterado são chamadas de portadoras da doença (ou portadoras do traço falciforme). Elas não desenvolvem a doença, mas podem ter filhos com anemia falciforme (vermelho).

Diagnóstico

 No Brasil, dados apontam que há mais de 8 mil pessoas afetadas pela anemia falciforme e 2 milhões de portadores do gene alterado. Estima-se que nasçam entre 700-1.000 crianças com a doença por ano.  Por isso, a anemia falciforme é considerada um problema de saúde no país, e deve ser diagnosticada o quanto antes para proporcionar o tratamento adequado.

Embora os níveis de hemoglobina defeituosa aumentem a partir do sexto mês de vida do bebê, o diagnóstico pode ser realizado desde o primeiro dia de vida. O diagnóstico pode ser realizado através do teste do pezinho, ou por testes genéticos como o meuDNA Bochechinha. 

Juntamente com a orientação médica adequada, os pais poderão agir rapidamente e oferecer ao bebê os melhores tratamentos possíveis, amenizando sintomas, evitando sequelas e melhorando a qualidade de vida do bebê. Adicionalmente, o meuDNA Bochechinha identifica, além da anemia falciforme, mais de 340 doenças genéticas tratáveis da primeira infância. 

2 comments
  1. Muito show essa sua forma de nos passar informações tão interessantes e necessárias.

  2. Excelente explicação, conteúdo complexo com uma abordagem leve, lindas ilustrações e um texto fácil de ler.

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