DNA de cientista: Barbara McClintock

Saiba mais sobre a vida de uma das principais geneticistas do século XX e sua descoberta dos transposons, genes que podem mudar de posição no DNA ​​

Em 1983, a bióloga norte-americana Barbara McClintock se tornou a primeira mulher a receber, sozinha, um prêmio Nobel de Medicina. A condecoração reflete, com justiça, as contribuições que McClintock deu à ciência ao longo dos seus 90 anos de vida. Mas a pesquisadora fez mais do que descobertas científicas; ela se tornou uma inspiração para mulheres ao se destacar em uma sociedade machista desde o início de sua vida. 

McClintock, na verdade, foi batizada como Eleanor. Mas, quando criança, seus pais decidiram que o nome era muito “feminino” e “delicado”, e não era apropriado para ela. Por isso, mudaram para Barbara. 

Logo no Ensino Médio, ela descobriu sua paixão pelas ciências. Sua vontade era continuar os estudos, mas sua mãe era contra a filha ir à faculdade, com medo de que isso diminuísse suas chances de se casar. Felizmente, seu pai permitiu que ela seguisse a carreira científica, e McClintock ingressou na Universidade de Cornell aos 17 anos, em 1919.

Botânica ou genética?

Durante os dois primeiros anos na universidade, McClintock concentrou seus estudos em botânica. Seu interesse pela genética surgiu em 1921, quando ela fez seu primeiro curso na área. Seu professor, impressionado pela inteligência da aluna, telefonou para McClintock e a convidou para o curso de graduação em genética de Cornell em 1922.

“Obviamente, aquele telefonema mudou o curso do meu futuro. Depois disso, eu permaneci na genética”, disse McClintock em entrevista ao comitê do Prêmio Nobel quando foi laureada.

McClintock concluiu a graduação em 1923, o mestrado em 1925 e o doutorado em 1927. Em todos esses diplomas, consta oficialmente sua formação em botânica, pois na época mulheres não podiam se graduar em genética em Cornell.

Estudando genética através do milho

Durante sua graduação e pós-graduação, McClintock utilizou o milho como ferramenta para estudar genética. Pode parecer estranho, mas muitos fenômenos genéticos, como a replicação do DNA e a própria estrutura e composição da molécula, são parecidos entre as mais diferentes espécies. Por isso, descobertas em plantas ou animais podem nos ajudar a entender melhor também o que acontece em nossos próprios corpos.

Entre seus feitos, McClintock mostrou pela primeira vez como era a morfologia dos cromossomos do milho com uma técnica desenvolvida por ela mesma. Seu trabalho foi incluído em grande parte dos livros didáticos que ensinam genética, influenciando muitas gerações futuras de cientistas.

A pesquisadora também foi a primeira a descrever algumas interações que acontecem entre os cromossomos durante a meiose, processo de divisão celular responsável por gerar gametas (óvulos e espermatozóides). Na época, acreditava-se que recombinações genéticas aconteciam durante a meiose, ou seja, cada gameta teria um conjunto de genes diferente dos demais. Em 1931, McClintock e um colega comprovaram essa teoria.

Transposons: os genes saltadores

Em 1948, ainda estudando a genética do milho, McClintock fez uma observação surpreendente: alguns genes conseguiam mudar de posição dentro de um cromossomo. Sua descoberta desafiava o conceito vigente na época de que o genoma era um conjunto estático de instruções que eram passadas de geração em geração.

A cientista chamou esses “genes saltadores”, como ficaram conhecidos, de transposons. Infelizmente, a comunidade científica permaneceu cética sobre o trabalho de McClintock e a existência dos transposons. Apenas nos anos 1960 e 1970, quando outros pesquisadores demonstraram o processo em bactérias através de tecnologias muito mais avançadas do que aquelas usadas por McClintock, ela foi reconhecida por sua descoberta.  

Para que servem os transposons?

Cerca de metade do genoma humano é composto por transposons. Por muito tempo, eles foram considerados DNA Lixo, ou seja, parte do nosso genoma que não tem função. Mas hoje sabemos que os transposons fazem muitos mais do que apenas saltar de um lugar para outro.

Mudar a posição de genes dentro do DNA pode acarretar em problemas. Transposons podem causar mutações dependendo da forma como se movem, o que pode resultar no desenvolvimento de doenças. Pesquisadores mostraram que inserir transposons em determinados locais pode causar hemofilia e alguns tipos de câncer, como câncer de cólon, por exemplo.

Mas, na maioria das vezes, transposons têm efeitos neutros ou positivos. Cientistas acreditam que eles ajudam na evolução dos genomas ao facilitarem a translocação de sequências de DNA. Além disso, transposons aumentam a diversidade genética em todos os organismos em que estão presentes.

O merecido reconhecimento

Demorou mais de trinta anos, mas o comitê do prêmio Nobel laureou McClintock por sua descoberta de “elementos genéticos móveis”, como mencionamos no começo do texto. Para ressaltar sua importância, a Academia de Ciências Sueca comparou McClintock à Gregor Mendel, considerado o pai da genética, quando entregou o prêmio a ela. 

McClintock também foi a primeira mulher a receber a Medalha Nacional de Ciência norte-americana, entregue pelo presidente Richard Nixon em 1970. A cientista continuou sendo uma das principais pesquisadoras da sua área no laboratório de Cold Spring Harbor, em Nova York, até falecer de causas naturais em 2 de setembro de 1992, aos 90 anos de idade.

Deixe uma resposta

You May Also Like