Mulheres que revolucionaram a ciência

Neste Dia Internacional da Mulher, conheça a história de cientistas cujas pesquisas revolucionaram a física, a química e a biologia

Ao longo da história, o machismo enraizado na sociedade pôde ser visto também na ciência. Durante séculos, mulheres não puderam ingressar em universidades ou cursar certas disciplinas. Muitas cientistas foram ignoradas por instituições de pesquisa, pelos comitês do Prêmio Nobel, entre outros, e deixaram de ser reconhecidas pelo simples fato de serem mulheres.

Nas áreas conhecidas como STEM (sigla em inglês que agrupa as disciplinas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática), a diferença entre os sexos é vista até hoje. De acordo com um estudo conduzido em 14 países, as probabilidades de uma mulher obter um título universitário, de mestrado e de doutorado nessas áreas são de, respectivamente, 18%, 8% e 2%; para homens, esses números são mais que o dobro (37%, 18% e 6%).

Esforços para diminuir essas diferenças incluem a criação do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, por exemplo. Mas, apesar de iniciativas como essa, infelizmente a luta contra o sexismo e a descriminação está longe de ser vencida. Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, homenageamos mulheres extraordinárias, que não apenas revolucionaram a ciência, como também são exemplos de superação e perseverança em sociedades intrinsecamente machistas.

Marie Curie

Marie Curie

Marie Curie nasceu em Varsóvia, no Reino da Polônia, parte do Império Russo, no dia 7 de novembro de 1867. Durante sua infância e adolescência, frequentou escolas apenas para meninas. Como não podia se matricular em uma instituição de ensino superior por ser mulher, ela e sua irmã Bronisława assistiam aulas na Flying University, uma universidade polonesa clandestina que aceitava mulheres. 

Aos 24 anos, em 1891, Marie foi morar com Bronisława na capital francesa, onde dois anos depois conseguiu seu diploma universitário em Física na Universidade de Paris. Lá ela também conheceu Pierre Curie, que se tornaria seu marido e colega de pesquisa.

Junto com Pierre, Marie demonstrou que átomos de urânio emitem radiação capazes de induzir condutividade elétrica no ar. Anos depois, a observação foi um passo importante para refutar a ideia vigente de que os átomos eram indivisíveis. Em suas pesquisas, os Curie também descobriram novos elementos, como o polônio, cujo nome é uma homenagem às origens polonesas de Marie, e o rádio, que ganhou o nome por emitir radioatividade – termo cunhado por eles.

Em junho de 1903, Marie conquistou seu diploma de doutorado. No mesmo mês, o casal Curie foi convidado para dar uma palestra na prestigiada Royal Institution de Londres. Entretanto, Marie, por ser mulher, não pôde falar; Pierre palestrou sozinho.

Também em 1903, Marie se tornou a primeira mulher laureada com um prêmio Nobel, dividido com seu marido e com o físico francês Antoine Becquerel pela descoberta da radioatividade. Novamente, o discurso de aceitação do prêmio foi dado apenas pelo seu marido, enquanto Marie assistiu da plateia.

Em 1911, Marie recebeu seu segundo prêmio Nobel pelas descobertas de novos elementos e, desta vez, teve direito ao tradicional discurso de aceitação. Até hoje, somente outros três pesquisadores têm dois prêmios Nobel no currículo: John Bardeen (Física 1956 e 1972), Linus Pauling (Química 1954 e Paz 1962) e Frederick Sanger (Química 1958 e 1980).

Barbara McClintock

Barbara McClintock

Barbara McClintock foi a primeira mulher a receber, sozinha, um prêmio Nobel de Medicina. A cientista descobriu os transposons, ou genes saltadores, que conseguem mudar de posição dentro de um cromossomo. Saiba mais sobre McClintock e transposons em: DNA de cientista: Barbara McClintock

Irène Curie

Irène Curie

Irène Curie, nascida em Paris em 1897, foi a primeira de duas filhas do casal Marie e Pierre. Sabendo da importância da educação, Marie sempre incentivou sua filha nos estudos, que obteve seu bacharelado na Faculdade de Ciências em Sorbonne, na capital francesa, em 1916.

Seus estudos, porém, foram interrompidos pela Primeira Guerra Mundial. Irène começou a trabalhar como enfermeira em campos de batalha, utilizando técnicas de raio-X para tratar soldados feridos. Após o final da guerra, Irène continuou a trabalhar com radiologia em uma instituição na Bélgica, e depois voltou para Paris para completar sua segunda graduação, em Matemática e Física, em 1918.

Com o segundo diploma universitário em mãos, Irène se tornou assistente de pesquisa de sua mãe e professora de radiologia no Radium Institute, criado por seus pais. Lá ela conheceu o engenheiro químico Frédéric Joliot, com quem se casaria em 1926. Juntos, o casal descobriria o fenômeno de radioatividade conhecido como decaimento beta, onde um elemento químico se transforma em outro pela emissão de uma partícula radioativa.

A descoberta permitiu que materiais radioativos, que na época estavam começando a ser utilizados em Medicina, pudessem ser criados de forma rápida e barata. Pelo trabalho, o casal foi laureado com o prêmio Nobel de Química em 1935.

Até o final de sua vida, Irène promoveu ativamente a educação para as mulheres, trabalhando, por exemplo, no Comitê Nacional da União de Mulheres Francesas (Comité National de l’Union des Femmes Françaises).

Rosalind Franklin

Rosalind Franklin

Rosalind Franklin teve um papel fundamental na descoberta da estrutura de dupla-hélice do DNA. Conheça sua história em: DNA de cientista: Rosalind Franklin.

Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier

Em homenagem ao casal Curie, a Universidade de Paris VI adotou o nome Universidade Pierre e Marie Curie em 1974. Lá, a graduanda Emmanuelle Charpentier estudou bioquímica, microbiologia e genética e, depois de se formar, trabalhou como professora assistente entre 1993 e 1999.

Em 2011, Charpentier conheceu Jennifer Doudna em uma conferência e as cientistas começaram uma colaboração. Doudna, bioquímica e doutora pela Escola Médica de Harvard, foi apresentada à tecnologia CRISPR em 2006 – um método que permite editar o DNA.

Em 2012, Doudna e Charpentier descobriram uma maneira muito mais barata e rápida de editar material genético. As pesquisadoras mostraram que uma classe de proteínas encontradas em bactérias, chamada Cas-9, poderia ser modificada para encontrar, se ligar e cortar qualquer sequência de código genético definido como alvo. Modificar o DNA torna possível, por exemplo, desativar um gene com efeitos indesejados, o que no futuro pode levar a novas formas de tratar ou curar doenças genéticas.

Doudna e Charpentier ganharam o prêmio Nobel de Medicina em 2020 pela descoberta e foram consideradas pela revista Time como duas das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2015. Ambas continuam suas pesquisas, Doudna na Universidade de Califórnia, em Berkeley, e Charpentier como diretora do Max Planck Institute for Infection Biology, em Berlin. 

Mary-Claire King

Mary-Claire King

Mary-Claire King desvendou a genética do câncer de mama e mudou para sempre o modo de prevenir, diagnosticar e tratar a doença. Saiba mais sobre sua vida e trabalho em: DNA de cientista: Mary-Claire King

Jaqueline Goes de Jesus

Jaqueline Goes

Jaqueline Goes de Jesus nasceu em 19 de outubro de 1989 em Salvador, na Bahia. Ainda na adolescência, decidiu seguir a carreira de biomédica e fez sua graduação na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Depois, obteve mestrado em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz, da Fundação Oswaldo Cruz, e doutorado pela Universidade Federal da Bahia.

No início de sua carreira, Jaqueline percorreu o nordeste brasileiro para sequenciar o genoma do vírus Zika, causador da doença de mesmo nome. No pós-doutorado, se dedicou ao estudo da dengue.

A pesquisadora ganhou notoriedade em 2020, quando aplicou seus conhecimentos de genética e epidemiologia na análise do coronavírus. Jaqueline liderou a equipe que sequenciou o novo coronavírus no Brasil pela primeira vez e em tempo recorde no mundo: em apenas 48 horas, seu time obteve o genoma do Sars-CoV-2. A média global, para termos uma ideia, era de 15 dias.

Em dezembro de 2021, Jaqueline foi homenageada pelo Conselho Nacional de Saúde do Brasil com a entrega da Comenda Zilda Arns. Na ocasião, a cientista disse: “Sabemos que muitos são os obstáculos para alcançar este patamar e comigo, mulher negra, não foi diferente. Esta homenagem é um reconhecimento inestimável”.

Tímidos progressos

Se nos primeiros 60 anos do prêmio Nobel (1901-1961) apenas três mulheres foram laureadas nas áreas de Física, Química e Medicina (Marie Curie, Irène Curie e Gerty Cori), nos últimos 60 anos (1962-2021) foram 19. O número, ainda muito pequeno quando consideramos a quantidade de brilhantes mulheres cientistas, mostra o tímido progresso feito para combater o machismo na sociedade e na ciência desde a época de Marie Curie até os dias de hoje.

O inegável fato é que as mulheres vêm, cada vez mais, comprovando seu inestimável valor. Cientistas ou não, elas merecem enorme respeito pelas suas conquistas e essa singela homenagem no Dia Internacional da Mulher.

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